Enquanto boa parte da comunidade tecnológica brasileira estava concentrada em discutir qual framework de machine learning adotar ou como otimizar o fine-tuning de modelos de linguagem, um movimento silencioso e de consequências profundas acontecia nos bastidores geopolíticos. A extrema direita bolsonarista, segundo análise de Reinaldo Azevedo no Metrópoles, já articulava com a ala trumpista americana a entrega — em termos práticos — do controle sobre as nossas reservas de terras raras. Mas este não é um artigo de análise política partidária. É um artigo sobre engenharia, sobre decisões técnicas que definem o futuro de produtos digitais e, acima de tudo, sobre como o Brasil corre o risco de repetir o ciclo do "minério de ferro" com um recurso ainda mais crítico para a inteligência artificial.
Terras raras não são terras nem são raras em termos geológicos. São um grupo de 17 elementos químicos — lantânio, cério, neodímio, disprósio, entre outros — que possuem propriedades magnéticas, ópticas e eletroluminescentes únicas. Sem eles, não existem ímãs permanentes de alto desempenho para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, alto-falantes e, crucialmente, para os atuadores e sensores que equipam robôs e sistemas autônomos. Mais relevante ainda: sem terras raras, a fabricação de certos componentes semicondutores de potência e de lasers de estado sólido usados em litografia fica comprometida. E onde está a inteligência artificial nessa equação? Em toda parte.
Por que um engenheiro de IA deveria se importar com geologia
Quando projetamos um sistema de inferência em borda — um modelo rodando em um dispositivo IoT, um assistente de voz local, um robô colaborativo —, o gargalo quase nunca é apenas o algoritmo. O hardware define os limites. Processadores especializados como TPUs e NPUs dependem de materiais semicondutores que, por sua vez, dependem de dopantes específicos. A produção de chips avançados (sub-7nm) exige compostos à base de terras raras como o óxido de cério para polimento de wafers e o lantânio para dielétricos de alta constante. Mesmo as GPUs mais poderosas do mundo — que são a espinha dorsal do treinamento de modelos profundos — não escapam: os ímãs de neodímio nos motores das ventoinhas de resfriamento, os sensores de Hall para posicionamento, tudo isso depende de um fornecimento estável desses elementos.
O que acontece, portanto, quando a cadeia de suprimentos de terras raras é controlada por uma única nação — a China — que detém cerca de 60% da produção e 90% do refino? O mercado de hardware de IA fica refém de decisões geopolíticas. Durante a guerra comercial entre EUA e China em 2010-2012, Pequim cortou drasticamente as exportações de terras raras, fazendo os preços dispararem mais de 600%. Empresas de tecnologia americanas e japonesas correram para diversificar fornecedores. O Brasil, com uma das maiores reservas geológicas do mundo (estima-se entre 20 a 30% do total global), nunca se posicionou como player relevante. O motivo? Ausência de uma política industrial integrada e, como bem aponta a coluna de Reinaldo, o risco de uma subserviência neocolonial.
O erro de trocar matéria-prima por tecnologia acabada
Para quem trabalha com engenharia de produto, a lição é dolorosa mas clara: o Brasil tem um histórico triste de exportar commodities com baixo valor agregado e importar tecnologia pronta. Fizemos isso com o minério de ferro, que volta como aço importado. Com a bauxita, que volta como alumínio. E agora corremos o risco de fazer o mesmo com terras raras. Vender o concentrado mineral a preço de custo e depois pagar caro por chips, ímãs e atuadores que dependem exatamente desse mesmo material. Do ponto de vista de engenharia, é um absurdo lógico: estamos abrindo mão de construir capacidade de refino, separação e manufatura de componentes críticos para a economia digital.
O refino de terras raras não é trivial. Requer processos hidrometalúrgicos complexos, com múltiplas etapas de extração por solventes e troca iônica. A China dominou esse know-how ao longo de décadas, com investimento sistemático em P&D e engenharia química. O Brasil tem mineradoras competentes, mas falta o elo entre a mina e a fábrica de semicondutores. Faltam cientistas de materiais aplicados, engenheiros de processo, laboratórios de caracterização. E falta, acima de tudo, uma estratégia de Estado que entenda que soberania digital passa por soberania mineral.
O papel da inteligência artificial na descoberta e processamento
Há um ângulo otimista — e aqui entramos de fato na IA aplicada. A mesma tecnologia que consumimos pode ser usada para resolver parte do problema. Algoritmos de aprendizado de máquina estão sendo aplicados na prospecção geológica para identificar depósitos de terras raras com maior precisão, reduzindo custos e impacto ambiental. Modelos de otimização podem melhorar a eficiência dos processos de separação, que hoje consomem enormes quantidades de ácidos e solventes. Redes neurais são usadas para prever a distribuição granulométrica e a composição química durante a lixiviação. Ou seja: o Brasil poderia usar IA para acelerar a criação de sua própria cadeia de valor.
Mas isso exige uma decisão estratégica. Exige que o governo e a iniciativa privada invistam em centros de pesquisa de materiais — algo que a Embraer fez com sucesso na aviação e a Embrapa na agropecuária. Não temos um "Embramineral" focado em tecnologias críticas. Os institutos federais de tecnologia e as universidades carecem de equipamentos de caracterização de ponta. E os engenheiros formados aqui, muitas vezes, encontram mercado mais promissor no exterior, contribuindo para o desenvolvimento tecnológico de outros países que depois venderão a nós mesmos.
Mercado de trabalho: o custo invisível da dependência
Para os profissionais de tecnologia no Brasil, o cenário atual é de oportunidades limitadas em setores de alta intensidade tecnológica. Enquanto isso, Irlanda, Israel, Singapura e Coreia do Sul apostam em ecossistemas que integram recursos naturais, P&D e manufatura avançada. O engenheiro de IA que deseja trabalhar com hardware terá que se mudar para o exterior, ou atuar como usuário de ferramentas importadas. É um desserviço à nossa capacidade de inovação. Se as terras raras brasileiras forem exploradas sob um modelo neocolonial — extração bruta para beneficiamento alheio —, o mercado de trabalho local continuará focado em serviços de baixo valor agregado, como suporte técnico e integração de sistemas.
A digitalização da economia, acelerada pela IA generativa e pela automação inteligente, está criando uma nova classe de ativos estratégicos. Dados são um deles. Terras raras são outro. O profissional que pensa apenas no software ignora que o software roda em hardware, e hardware depende de materiais. Quem domina a cadeia completa controla o futuro. O Brasil, neste momento, tem uma janela de oportunidade que pode se fechar rapidamente: enquanto os EUA e a Europa tentam reduzir sua dependência da China, o Brasil pode se posicionar como parceiro de valor, mas não como mero fornecedor de matéria-prima.
Os riscos de uma "internacional neocolonialista" no século 21
A expressão usada na coluna de Reinaldo Azevedo — "Internacional Neocolonialista" — descreve um movimento político que, sob o pretexto de alianças estratégicas, entrega ativos nacionais a potências estrangeiras em troca de ganhos imediatos. No campo tecnológico, o neocolonialismo digital pode assumir a forma de contratos de exploração mineral que não transferem tecnologia, joint ventures que usam mão de obra local apenas para extração, e tratados que restringem o desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais via patentes ou barreiras técnicas. É o irmão siamês da dependência de software proprietário e infraestrutura de nuvem estrangeira.
Como profissional que trabalha com transformação digital, vejo paralelos diretos. Uma empresa que terceiriza sua inteligência de dados para um fornecedor externo perde capacidade de inovação. Um país que terceiriza sua capacidade de refino de terras raras perde soberania industrial. Não se trata de isolacionismo tecnológico — ninguém defende reinventar a roda —, mas de garantir que haja desenvolvimento local paralelo. O Brasil precisa de um programa nacional de terras raras que vá da geologia à fabricação de componentes, com metas claras de verticalização e incentivos fiscais para P&D em materiais. Caso contrário, a promessa de "fubá" neocolonial se cumpre literalmente: seremos o celeiro da matéria-prima, enquanto outros colhem o pão da inteligência artificial.
Uma recomendação editorial para engenheiros e gestores
Se você trabalha com produtos digitais, IA ou infraestrutura em nuvem, recomendo que comece a prestar atenção às discussões sobre política mineral e industrial. Não é uma pauta distante. É a base sobre a qual a sua stack tecnológica se apoia. Leia os artigos de geopolítica, acompanhe as negociações sobre comércio de terras raras, entenda onde o Brasil está perdendo pontos. E, quando puder, envolva-se em projetos que conectem a academia à indústria — seja como mentor, consultor ou investidor. O futuro da inteligência artificial não será definido apenas por melhores modelos, mas também por quem controla os átomos que os viabilizam.
O Brasil tem condições de ser um protagonista. Tem geologia, tem gente, tem capacidade de engenharia. Falta vontade política e, em parte, visão estratégica dos próprios profissionais de tecnologia. Enquanto a extrema direita bolsonarista negociava a entrega do nosso patrimônio mineral no altar do trumpismo, a comunidade tecnológica estava distraída com atualizações de framework. Chegou a hora de acordar para o fato de que dados não são o único recurso estratégico. Terras raras são o novo petróleo da Era Digital. E, se não quisermos ser colônia novamente, precisamos extrair mais do que minério — precisamos extrair valor, conhecimento e independência.

