O evento e o que realmente importa para a engenharia de software
No dia 26 de setembro de 2026, Belo Horizonte receberá a segunda edição do Inter Invest Summit, promovido pelo Inter, na Arena MRV. Se você é engenheiro de software, especialista em infraestrutura ou produto digital, talvez tenha passado os olhos pela notícia e pensado: "mais um evento de investimentos". Seria um erro. O que realmente está em jogo quando uma plataforma com 45 milhões de usuários organiza um encontro desse porte não são apenas as palestras sobre mercado financeiro — é a demonstração pública de que a empresa precisa operar uma máquina de tecnologia que suporte escala, latência mínima, segurança de dados financeiros e inteligência aplicada em tempo real. O Inter não é uma fintech qualquer; é um super app. E super apps são, acima de tudo, problemas de engenharia.
A minha experiência com infraestrutura em nuvem e segurança me fez acompanhar de perto a evolução dessas plataformas. O que vemos hoje é um movimento que vai além do "incluir mais serviços no mesmo aplicativo". A pergunta técnica que fica é: como sustentar a promessa de um ecossistema financeiro completo sem comprometer performance a cada nova funcionalidade? O Inter Invest Summit, por trás do marketing, é um termômetro de maturidade tecnológica.
Super app: por que a arquitetura deixa de ser um detalhe e passa a ser o produto
Quando falamos de um super app financeiro, não estamos nos referindo a um monólito que cresceu desordenadamente. O modelo de negócio exige uma arquitetura de microsserviços madura, com domínios claramente separados: contas, pagamentos, investimentos, crédito, seguros, marketplace. Cada um desses domínios precisa se comunicar de forma confiável, com baixo acoplamento e alta coesão. O desafio é que, no nível de 45 milhões de usuários, qualquer alteração em um domínio pode gerar efeitos colaterais imprevisíveis se não houver contratos de API bem definidos, observabilidade avançada e estratégias de resiliência como circuit breakers e retries com backoff exponencial.
Já vi equipes inteiras tentarem "consertar" problemas de lentidão em plataformas financeiras com simples aumento de instâncias na nuvem. Isso raramente funciona porque o gargalo quase nunca é apenas computacional — é de desenho. O Inter precisa garantir que, durante um pico de acessos no evento, a consulta ao saldo de investimentos não degrade a experiência de quem está fazendo um PIX. E isso não se resolve com mais servidores; resolve-se com isolamento de recursos, filas de mensagens assíncronas e, cada vez mais, com modelos preditivos que antecipam demanda.
IA aplicada no coração da operação financeira
O termo "inteligência artificial" aparece em quase todo release de evento hoje em dia, mas em super apps financeiros a IA deixou de ser enfeite. Passei os últimos anos implementando sistemas de detecção de anomalias em transações e posso afirmar que, sem machine learning, uma plataforma com esse volume de usuários simplesmente não opera de forma segura. Estamos falando de modelos que analisam padrões de comportamento em tempo real para bloquear fraudes, sugerir investimentos, ajustar limites de crédito e até prever quais usuários têm maior probabilidade de abrir chamado no suporte.
A segunda edição do Inter Invest Summit provavelmente terá painéis que abordam essas aplicações. O que não se discute tanto em palestras é a dor de cabeça do MLOps: como versionar modelos, como garantir que o treinamento offline não gere viés em produção, como fazer deploy sem interromper o fluxo de decisões. Em infraestrutura, manter um pipeline de inferência para milhões de requisições por minuto exige GPU sob demanda, cache de embeddings, e um monitoramento que vai além de métricas de sistema — precisa monitorar a acurácia do modelo em produção, e isso é um campo minado. Nem todo engenheiro de software está preparado para depurar um falso positivo que travou milhares de transações legítimas.
Segurança como barreira (e não como funcionalidade opcional)
Eventos que reúnem grandes nomes do mercado financeiro costumam atrair atenção também de outro tipo de público. Um super app exposto a 45 milhões de usuários é um alvo prioritário para ataques cibernéticos. Já atuei em respostas a incidentes que começaram com um ataque DDoS em dia de lançamento de produto — exatamente quando a atenção da equipe está voltada para o marketing e o conteúdo do evento. A segurança em plataformas como o Inter precisa ser pensada de forma proativa: segmentação de rede, criptografia fim a fim, gestão de chaves com HSM na nuvem, e uma cultura de DevSecOps que não trate segurança como um "checklist" no final do sprint.
Outro ponto que poucos abordam é a segurança dos dados usados para treinar os modelos de IA. Se a recomendação de investimentos é baseada no perfil do usuário, como garantir que esses dados não vazem entre domínios do super app? A governança de dados em ambientes multicloud — e o Inter utiliza múltiplos provedores — exige políticas de acesso granulares, auditoria de cada consulta a datasets sensíveis e, idealmente, ambientes de treinamento que não exponham dados reais de produção. Em projetos que liderei, a separação entre dado de produção e dado de treinamento evitou pelo menos três incidentes graves de compliance.
Privacidade em produto: o novo campo de batalha
Com mais de 45 milhões de usuários, qualquer decisão de produto no Inter impacta diretamente a privacidade de uma população equivalente à de países inteiros. A LGPD não é opcional — é uma restrição de desenho. Cada nova funcionalidade que coleta dados de navegação ou comportamento financeiro precisa passar por uma análise de impacto à privacidade antes de ir para desenvolvimento. Já vi startups quebrarem tentando "primeiro lançar, depois adequar". Em escala de super app, o custo de remediar um vazamento é astronômico, tanto em multas quanto em confiança do usuário.
Além disso, o uso de inteligência artificial para personalização de ofertas esbarra em um dilema técnico: até que ponto a coleta de dados melhora a experiência versus cria riscos de vigilância? Em engenharia de produto, aprendi que a transparência algorítmica — explicar ao usuário por que ele recebeu uma oferta específica — não é apenas boa prática, é uma exigência regulatória que está se consolidando. O Inter Invest Summit pode ser uma oportunidade para discutir como implementar explainable AI sem comprometer a propriedade intelectual dos modelos.
O que o mercado de trabalho espera de quem constrói essas plataformas
Se você é engenheiro de software e quer atuar em projetos como o do Inter, precisa saber que o perfil mudou. O profissional que apenas codifica CRUDs está rapidamente se tornando obsoleto nesse segmento. O que o mercado busca hoje é quem entende de domínio de negócio — finanças, compliance, prevenção a fraudes — e consegue traduzir isso em decisões de arquitetura. Não basta saber Kubernetes ou Kafka; é preciso saber por que um sistema financeiro exige consistência eventual com garantias de idempotência, ou por que uma fila de mensagens pode ser preferível a uma chamada síncrona para autorização de pagamento.
Durante minha trajetória, contratei dezenas de engenheiros para times de infraestrutura e segurança. Os que mais se destacaram não eram os que tinham mais certificações, mas os que faziam perguntas do tipo: "O que acontece se esse microsserviço cair exatamente no momento de liquidar uma ordem de investimento?" ou "Como garantimos que o modelo de IA que recomenda um fundo não está sendo manipulado por dados corrompidos?". O futuro do trabalho em tecnologia financeira exige pensamento crítico aplicado a sistemas distribuídos de alta responsabilidade.
Infraestrutura em nuvem: a base invisível do sucesso
Um evento como o Inter Invest Summit depende de uma infraestrutura que o público nunca vê. O streaming ao vivo, as inscrições, os pagamentos no local, a integração com sistemas de bilheteria — tudo isso é orquestrado em nuvem. A diferença entre uma experiência fluida e um site fora do ar é a capacidade de projetar para falhas. Em nuvem, isso significa usar múltiplas zonas de disponibilidade, balanceamento de carga global, caching em CDN para conteúdo estático, e auto-scaling baseado em métricas de negócio — não apenas em CPU ou memória.
Uma das lições mais caras que aprendi foi sobre a importância de testar a resiliência do sistema sob carga realista. Simular o tráfego de um evento como o Summit não é trivial. Ferramentas de chaos engineering, combinadas com testes de carga que imitam padrões de acesso reais — picos de login pela manhã, consultas simultâneas de saldo, operações de investimento concentradas próximo ao horário de fechamento do mercado — são fundamentais. Quem espera o dia do evento para descobrir que o banco de dados não escala está fadado a passar vergonha na frente dos "grandes nomes do mercado".
Riscos e pontos de atenção: nem tudo são elogios
Um alerta que faço a qualquer equipe que esteja construindo um super app: o crescimento acelerado de funcionalidades pode levar a uma dívida técnica perigosa. A pressão de marketing para "ter todos os serviços em um só app" frequentemente conflita com a estabilidade do core bancário. Já vi casos em que o time de produto empurrava uma nova feature de investimentos sem que o time de infraestrutura tivesse preparado o ambiente para lidar com a latência adicional de consultas a múltiplos provedores de liquidação. O resultado foi degradação generalizada.
Outro risco é a dependência excessiva de fornecedores terceiros de IA. Muitas fintechs terceirizam a camada de recomendação ou antifraude para APIs de grandes provedores de nuvem. Isso pode funcionar no curto prazo, mas cria um risco de bloqueio tecnológico e de vulnerabilidade a mudanças de preço ou termos de serviço. Minha recomendação é manter um core de modelos proprietários para as funcionalidades críticas, reservando a terceirização apenas para algoritmos comoditizados. O controle sobre o dado e sobre o modelo é um diferencial competitivo que nenhum super app deveria abrir mão.
O que fica após o evento
O Inter Invest Summit é, sem dúvida, um marco importante para o mercado financeiro de Belo Horizonte e para o ecossistema de inovação. Mas, como colunista e profissional de tecnologia, meu olhar está no que sustenta tudo isso por baixo. São os engenheiros, arquitetos, especialistas em segurança e cientistas de dados que tornam possível que 45 milhões de pessoas movimentem dinheiro, invistam e consumam dentro de um mesmo ecossistema digital com confiança.
Eventos como esse servem para lembrar que produto digital de qualidade não é sorte — é projeto, disciplina e investimento contínuo em infraestrutura, IA aplicada com responsabilidade, privacidade desde o desenho e uma cultura de engenharia que valoriza tanto o código quanto o negócio. Se você trabalha com tecnologia, acompanhe o que sai do Summit não apenas pelas manchetes de investimentos, mas pelo que ele revela sobre como uma máquina financeira moderna realmente funciona.

