Quando a profissão que você exerce simplesmente desaparece
As carpideiras existiram durante séculos. Eram mulheres pagas para chorar em funerais, canalizando a dor coletiva de comunidades que, por razões culturais ou emocionais, não conseguiam expressar o luto abertamente. Hoje, essa função parece absurda — quase medieval. Mas, para quem viveu daquela prática, o desaparecimento da profissão representou algo profundo: a perda de identidade, de propósito e de sustento. A psicóloga Daniela Nogueira, organizadora do 3º Congresso Europeu do Luto, definiu o luto como “uma adaptação a uma nova realidade”. Essa definição ecoa de forma perturbadora no mercado de tecnologia, onde funções inteiras são extintas em ciclos cada vez mais curtos, e onde o luto profissional se tornou uma experiência silenciosa e recorrente.
Como engenheiro de software há mais de quinze anos, testemunhei várias “mortes” profissionais: administradores de sistemas tradicionais tornados obsoletos pela nuvem, analistas de desempenho substituídos por observabilidade automatizada, testadores manuais que viram suas funções evaporarem com a ascensão de pipelines CI/CD e frameworks de teste integrados. Cada uma dessas transições não foi apenas uma mudança de ferramenta — foi um processo de luto coletivo. O que poucos discutem é que o luto profissional, quando mal processado, leva a estagnação e obsolescência. Quando bem processado, transforma-se em resiliência e reinvenção.
A negação como primeira fase da extinção funcional
No ciclo de Kübler-Ross adaptado para carreiras, a negação aparece quando um profissional se recusa a aceitar que sua especialidade está morrendo. Lembro de colegas arquitetos de software que, em 2015, insistiam que microsserviços eram “modinha” e que monolítos bem construídos durariam para sempre. Não estavam errados em defender boas práticas, mas erraram ao ignorar os sinais de que o mercado já contratava majoritariamente para arquiteturas distribuídas. A negação é confortável: ela nos mantém na zona de conhecimento consolidado. O problema é que o mercado não espera. Assim como as carpideiras perderam espaço para serviços funerários mais padronizados e discretos, especialistas em tecnologias “cada vez mais” nichadas podem acordar um dia sem demanda.
Na prática, a negação se manifesta em discursos como “isso é para empresas grandes” ou “a minha stack ainda tem mercado”. Sim, pode ter, mas o declínio de uma tecnologia raramente é linear. Há um platô, uma falsa estabilidade, e depois uma queda abrupta. Quem já viveu a transição de Cobol para Java, de SOAP para REST, de servidores físicos para AWS, sabe que o momento de agir é antes do platô quebrar. A negação é o maior inimigo da adaptação.
A barganha tecnológica: certificações e cursos que não resolvem o essencial
Na fase da barganha, muitos profissionais tentam negociar com o inevitável: fazem um curso de Kubernetes mas continuam pensando em VMs, obtêm uma certificação cloud mas terceirizam a aplicação prática para “quando surgir uma oportunidade”. É uma forma de procrastinação disfarçada de atualização. Barganhamos tempo, recursos e energia em soluções paliativas que não enfrentam a raiz do luto: a necessidade de reconstruir a própria identidade profissional.
Vi isso de perto com a chegada da inteligência artificial generativa. Em 2023, muitos engenheiros correram para fazer cursos introdutórios de machine learning, mas poucos realmente integraram o LLM no fluxo de desenvolvimento diário. A barganha é segura, mas insuficiente. A adaptação genuína exige um abandono — doloroso — de práticas antigas. Não basta aprender o novo; é preciso desaprender o velho. E desaprender é uma forma de luto.
A raiva contra a mudança: um combustível que pode virar direção
A raiva também aparece. “As empresas só querem modinhas”, “a IA vai destruir a criatividade”, “contratam qualquer um que sabe usar ferramenta X”. Já ouvi (e às vezes pensei) todas essas frases. A raiva é legítima, especialmente quando sentimos que anos de experiência são desvalorizados por uma skill que pode ser aprendida em semanas. Mas a raiva prolongada cega. Ela transforma o profissional em um crítico amargo que observa o mercado de fora, em vez de participar da construção do novo.
Não estou defendendo que se deve aceitar toda mudança cegamente — críticas fundamentadas são essenciais para evitar hype e más decisões técnicas. A questão é o destino dado à raiva: se ela nos paralisa ou nos impulsiona a entender profundamente o que está mudando. Engenheiros que canalizaram essa insatisfação para construir ferramentas próprias, contribuir com projetos open source ou escrever análises técnicas consistentes conseguiram transformar o luto em influência. A raiva, bem administrada, é um sinal de que nos importamos — e isso pode ser um motor de inovação.
A depressão silenciosa do profissional que se sente substituível
Talvez a fase mais difícil do luto profissional seja a depressão. Não a clínica, mas aquela sensação difusa de irrelevância. Ela ocorre quando o profissional percebe que não apenas uma ferramenta mudou, mas que seu papel na cadeia de valor está sendo questionado. Com a automação de tarefas que antes exigiam julgamento humano (como revisão de código, geração de testes, análise de logs), muitos engenheiros se perguntam: “Se a IA pode fazer isso, qual o meu valor?”.
Essa pergunta é legítima e precisa ser enfrentada. O valor não está na execução mecânica, mas na capacidade de tomar decisões em cenários de incerteza, de entender o contexto de negócio que gerou aquele requisito, de integrar múltiplos sistemas com trade-offs reais de custo e segurança. A depressão surge quando confundimos execução com contribuição. O profissional que supera essa fase descobre que seu verdadeiro valor não está na tarefa, mas no julgamento sobre qual tarefa fazer e como priorizar trade-offs. A IA pode escrever código, mas não pode (ainda) justificar por que aquele código deve existir — isso exige compreensão de impacto de produto, de arquitetura de longo prazo, de riscos de segurança e privacidade.
Aceitação e adaptação: construindo uma carreira antifrágil
A aceitação, na psicologia do luto, não significa conformismo. Significa incorporar a nova realidade à sua visão de mundo. Para o profissional de tecnologia, aceitar que funções morrem é o primeiro passo para construir uma carreira antifrágil — aquela que se fortalece com a volatilidade, em vez de se fragilizar.
Na prática, isso se traduz em algumas estratégias que venho adotando e recomendando:
- Investir em fundamentos, não em ferramentas. Algoritmos, estruturas de dados, princípios de design de sistemas, segurança e privacidade por design — esses conhecimentos atravessam décadas. A ferramenta muda, a base permanece.
- Cultivar um “portfólio de identidades” — não dependa de um único título (desenvolvedor backend, especialista em cloud, etc.). Desenvolva habilidades complementares: produto, dados, comunicação, liderança técnica. Quanto mais eixos você domina, menos vulnerável fica à extinção de um deles.
- Praticar o desapego programado — a cada dois anos, reavalie sua stack principal. Pergunte-se: “Se eu tivesse que recomeçar minha carreira hoje, investiria nisso?”. Se a resposta for não, comece a transição antes que o mercado force.
- Documentar e compartilhar seu processo de adaptação. Escrever sobre como você está aprendendo, errando e ajustando não apenas consolida o aprendizado, como constrói uma rede de contatos e autoridade que independe da tecnologia específica.
As carpideiras não desapareceram porque seu ofício era inviável, mas porque a função social que exerciam foi transferida para outras formas de atendimento ao luto (psicólogos, serviços de apoio, rituais mais privados). O mesmo ocorre na tecnologia: funções não são eliminadas, são transformadas. O administrador de sistemas se torna engenheiro de confiabilidade de sites (SRE). O testador manual se torna engenheiro de qualidade integrado ao desenvolvimento. O programador que apenas escrevia código se torna engenheiro de produto que pensa em valor de negócio.
Riscos e pontos cegos dessa visão
É importante reconhecer que a metáfora do luto tem limites. Luto por uma pessoa ou um ente querido envolve profundas dimensões emocionais e relacionais que não se comparam a mudanças de carreira. Além disso, há um risco de romantizar a adaptação como se toda perda profissional fosse uma oportunidade inevitável de crescimento. Não é. Há contextos de precarização, desemprego e falta de suporte que tornam o luto profissional um processo solitário e injusto. Empresas e líderes técnicos também têm responsabilidade de criar ambientes que acolham essas transições, oferecendo programas de requalificação, mentoria e segurança psicológica durante mudanças de tecnologia.
Outro ponto cego é a velocidade. O luto profissional está acontecendo em ciclos cada vez mais curtos — a meia-vida de uma habilidade técnica já é estimada em menos de cinco anos. Se antes um engenheiro podia se especializar em uma tecnologia por uma década, hoje precisa se reinventar a cada lançamento de framework ou modelo de IA. Isso gera fadiga, ansiedade e, em muitos casos, desistência da profissão. A resiliência não pode ser tratada como um atributo individual apenas; ela depende de suporte sistêmico — coisas como comunidades de prática, redes de apoio entre pares e políticas organizacionais que incentivem o aprendizado contínuo sem penalizar a experimentação.
O que as carpideiras me ensinaram sobre futuro do trabalho
Ao refletir sobre a entrevista de Daniela Nogueira, não pude deixar de traçar um paralelo entre o luto pessoal e o profissional. A frase “o luto é uma adaptação a uma nova realidade” resume o principal desafio do mercado de tecnologia hoje: aceitar que nada é permanente, nem mesmo as habilidades que nos tornaram relevantes. As carpideiras eram pagas para chorar, e isso tinha uma função útil — da mesma forma que muitas funções técnicas atuais são úteis e importantes, mas podem se transformar ou desaparecer.
Minha recomendação editorial é direta: não ignore os sinais de luto na sua carreira. Se você sente que sua especialidade está morrendo, não se apresse em negar ou barganhar. Permita-se sentir a perda, mas estabeleça um prazo para processá-la e partir para a ação. A melhor homenagem que podemos fazer ao que ficou para trás é evoluir. As carpideiras não choram mais por nós. Mas cabe a nós, engenheiros, arquitetos e profissionais de tecnologia, aprender a chorar nossas funções extintas com dignidade — e, depois, construir algo que faça sentido no mundo que está por vir.

