Quando um plano de governo é divulgado, profissionais de tecnologia tendem a olhar para os capítulos de digitalização, conectividade e inovação. Mas, na prática, as propostas econômicas — reforma tributária, redução de carga fiscal, desburocratização — são as que mais determinam o ambiente para decisões técnicas e de produto. O plano de Flávio Bolsonaro, anunciado recentemente, coloca a economia no centro. E é exatamente ali que um engenheiro de software, um arquiteto de nuvem ou um líder de IA deve focar.
Não se trata de fazer análise política, mas de ler as entrelinhas técnicas de um documento que, se implementado, altera drasticamente o custo do capital, as margens de operação em nuvem e os incentivos para Pesquisa e Desenvolvimento em inteligência artificial. Vou compartilhar aqui minha leitura de profissional que já negociou contratos de cloud, dimensionou data centers e avaliou riscos fiscais em projetos de IA.
Reforma tributária e o custo da infraestrutura em nuvem
O ponto central do plano é a reforma tributária — simplificação e redução de alíquotas. Para quem opera infraestrutura em nuvem, isso significa um impacto direto no custo de aquisição de hardware, energia elétrica e serviços de data center. Hoje, no Brasil, a tributação sobre equipamentos de TI pode chegar a mais de 60% em alguns estados, inviabilizando a construção de data centers próprios e forçando empresas a dependerem de provedores estrangeiros com preços dolarizados.
Se a reforma proposta reduzir o PIS/Cofins e o ICMS sobre servidores, storages e switches, o custo de implantação de clusters internos pode cair entre 15% e 25%. Isso muda o trade-off entre cloud pública e infraestrutura on-premise para workloads de IA pesados, como treinamento de modelos grandes ou inferência de baixa latência. Em projetos que temos tocado, a falta de isenção para equipamentos de alto desempenho é um dos gargalos para a soberania de dados e para a redução de latência em aplicações críticas.
Lição prática: uma reforma tributária bem desenhada poderia acelerar a adoção de edge computing no Brasil, permitindo que mais processamento de IA aconteça próximo ao usuário final — especialmente em setores como agro, saúde e varejo. Profissionais de infraestrutura devem começar a modelar cenários com diferentes alíquotas para se preparar para uma eventual mudança.
Redução da burocracia e impacto em times de engenharia
Outra frente do plano é a desburocratização. Para um CTO ou líder de produto, isso pode significar menos entraves na contratação de talentos estrangeiros, na importação de componentes e na abertura de filiais. A legislação trabalhista atual impõe custos indiretos altos para times de tecnologia — desde a tributação sobre folha até a complexidade de regimes de home office.
Se a proposta avançar com a simplificação de regimes especiais (como o REPES ou o Lei do Bem), empresas de IA poderão usufruir de incentivos fiscais de forma menos burocrática. Na prática, isso libera horas de times jurídicos e financeiros, que hoje consomem energia preciosa para comprovar dispêndios em P&D. Já vi startups de IA gastarem mais de seis meses apenas para conseguir o enquadramento em programas de incentivo — tempo que poderia ser usado para iterar modelos ou fechar contratos.
Do ponto de vista do engenheiro, menos burocracia significa mais previsibilidade no fluxo de caixa da empresa. Isso se reflete em orçamentos de infraestrutura mais estáveis e na possibilidade de investir em clusters GPU dedicados em vez de depender exclusivamente de alocações sob demanda — que no Brasil custam em média 30% a mais do que nos Estados Unidos devido a impostos e carga tributária.
Incentivos à inovação e o cenário para startups de IA
O plano de governo menciona a intenção de fortalecer a inovação, mas sem detalhar instrumentos específicos. Aqui cabe uma análise crítica: sem mecanismos claros de subvenção econômica (como a Lei do Bem ou a Finep), a redução de impostos genérica pode beneficiar mais empresas consolidadas do que startups de IA, que muitas vezes operam com prejuízo nos primeiros anos e não têm receita para absorver créditos tributários.
Em projetos que acompanhei, o maior desafio para startups de IA não é o imposto sobre o lucro — que não existe —, mas o custo de capital para financiar GPUs e salários de cientistas de dados. Uma reforma tributária que não inclua mecanimos de acesso a crédito subsidiado ou Fundos Setoriais pode deixar um vazio justamente no segmento mais dinâmico. Profissionais de IA que atuam em empresas emergentes devem ficar atentos a esse ponto: a simplificação fiscal é bem-vinda, mas não substitui uma política de fomento à P&D com recursos não-reembolsáveis.
Segurança cibernética e privacidade em produto
Um tópico que não aparece no plano de governo, mas que é consequência direta de qualquer movimento de digitalização, é segurança cibernética. Quando se reduz a burocracia e se simplifica a tributação, há um risco de que empresas pulem etapas de conformidade para ganhar velocidade. Já vi casos em que a pressão por redução de custos levou times a adotar soluções de IA sem auditoria adequada de dados, gerando vazamentos e multas.
Se o novo governo quiser realmente promover a inovação em IA, precisa criar um arcabouço de segurança que não engesse, mas que proteja os cidadãos. Isso pode incluir a criação de um selo de conformidade para sistemas de IA treinados com dados sensíveis, ou a simplificação da notificação de incidentes para empresas de tecnologia. Profissionais de privacidade em produto terão que pressionar por regras claras desde o início, antes que a reforma tributária crie um boom de adoção sem governança.
Mercado de trabalho em tecnologia: o que muda?
A redução de impostos e a desburocratização podem aumentar a demada por profissionais de tecnologia, especialmente em setores que hoje são informais no uso de IA — como construção civil, logística e comércio. Mas é ingênuo achar que isso gerará automaticamente empregos qualificados. Sem investimento em educação básica e formaçaão técnica, o gap de talentos pode se agravar.
Em conversas com recrutadores de big techs, o principal gargalo no Brasil não é a tributação, mas a falta de formação em linhade comando e pensamento sistêmico para lidar com sistemas de IA. Uma reforma que queira gerar empregos precisa incluir incentivos para bootcamps, cursos técnicos e programas de residência em IA. Senão, o que sobra será a tercerização de serviçpos de infraestrutura com baixo valor agregado.
Um olhar para o cenário de nuvem e data centers
Outro ponto que merece atenão é a polítca de conteudo local. O plano não menciona restrições à uso de nuvem estrangeira, mas em um cenário de tensão geopoltica, pode haver pressão para que dados de IA fiquem dentro do país. Se isso acontecer, a reforma tributária terá que ser acompanhada de incetivos para construção de data centers nacionais, com linha de crédito específica para arqitetura de resfriamento, energia e cibersegurança.
Já participei de projetos para dimensionar data centers no Brasil, e um dos maioes custos é a energia e os tributos sobre ela. Reduzir o PIS/Cofins sobre enrgia elétrica para data centers seria um ganho imediato para a viabilidade de treinamento de modelos grandes em territorio nacional. Sem isso, continuaremos a exportar dados para clouds no Chile ou nos EUA, aumentando latência e riscos de privacidade.
O que profissionais de IA devem fazer agora
Não estou defendendo nenhuma candidatura. Estou apontando que, independente do resultado das urnas, as propostas econômicas em discussão vão moldar o ambiente de trabalho de engenheiros, arquitetos e cientistas de dados nos próximos anos. Minha recomendação é prática:
- Modele cenários financeiros: use as alíquotas propostas para recalcular o TCO de suas operações em nuvem. Se a reforma passar, seu custo de infra pode cair — e isso justifica investimentos em clusters próprios ou em contratos de longo prazo.
- Acompanhe os edits finais da reforma: não espere o texto virar lei. Participe de audiências públicas ou canais de consulta, levando dados técnicos sobre impacto em projetos de IA.
- Fortaleça a governança de dados: a simplificação fiscal pode atrair mais investimento estrngeiro, e com eles a exigência de conformidade com LGPD e padrões internacionais. Times de privacidade em produto devem estar preparados.
- Invista em diversificação de carreira: se a reforma acelerar a digitalização, haverá demanda por profissionais que entendam tanto de IA quanto de regulação tribuária e segurança. Esse é um diferencial de mercado.
No fim, o que um plano de governo promete em economia é, para nós da tecnologia, um sinal sobre o custo do capital, a complexidade operacional e os riscos de compliance. Cabe a cada profissional ler esse sinal e se posicionar — seja para negociar orçamentos, seja para orientar a estratégia de produto. O futuro da IA no Brasil não será decidido apenas nos labs de inovação, mas nas negociações de reforma tributária que estão por vir.
