A pergunta que abre o programa Realpolitik — se a direita populista vai tomar conta de Portugal e da Europa — costuma ser respondida com análise política: crise de representação, inflação, imigração, cansaço das elites. Receio que essa leitura esteja incompleta. Nos últimos anos, atuando com IA aplicada a produtos digitais, passei a enxergar o avanço eleitoral de forças como a AfD na Alemanha e o Chega em Portugal como um fenômeno também de engenharia. A arquitetura de recomendação, a automação de conteúdo e a falta de transparência nos modelos criaram uma infraestrutura perfeita para a amplificação do discurso populista. Ignorar isso é, na prática, omitir a parte mais operacional da crise democrática europeia.
Não quero com isso afirmar que a tecnologia "elegeu" ninguém. Populismo existia muito antes da internet. Mas a escala, a velocidade e o custo de disseminação mudaram radicalmente. Na década de 1930, um discurso radical demorava anos para conquistar as massas; hoje, um vídeo sintético, produzido em segundos, percorre o continente em horas. Enquanto a conversa pública se concentra nos discursos dos líderes, a IA aplicada trabalha nos bastidores: recomenda, hierarquiza, personaliza e otimiza o que cada pessoa vê. E o que a maioria dos algoritmos otimiza, em última instância, é o tempo de tela — não a saúde do debate público.
Essa é uma diferença essencial para entender o momento atual. Não estamos diante de um acaso algorítmico, mas de uma escolha de métricas. Quando um produto digital define como sua principal métrica o engajamento, ele está tomando uma decisão de arquitetura: dar mais espaço aos conteúdos que provocam reações fortes. Em cenários políticos, isso quase sempre favorece a polarização. O populismo, com seu tom de urgência e conforto maniqueísta, performa muito bem nesse ambiente. Não é coincidência que forças como a AfD sejam, ao mesmo tempo, extremamente competentes em comunicação digital — elas aprenderam a jogar o jogo das plataformas.
Entretanto, o engano mais comum entre colegas de tecnologia é achar que o problema se resume aos feeds das redes sociais. A IA aplicada à política vai muito além da recomendação. Modelos de linguagem geram textos de campanha em massa, ferramentas de automação enviam mensagens personalizadas para eleitores e sistemas de análise de sentimentos orientam a formulação de discursos em tempo quase real. O que antes exigia uma estrutura partidária gigante hoje cabe em um notebook. Isso muda a economia das campanhas: para operar no espaço público, o populismo digital não precisa mais de militância orgânica na mesma proporção, apenas de infraestrutura algorítmica.
O algoritmo como partido invisível
Sistemas de recomendação e a caixa de ressonância
Plataformas sociais operam como partidos invisíveis, com uma diferença crucial: não precisam assumir compromissos eleitorais. Seus algoritmos determinam quais mensagens políticas sobrevivem e quais morrem no silêncio. Em tese, o sistema é neutro — na prática, ele carrega valores. Um modelo treinado em dados históricos vai reproduzir preconceitos, vieses e prioridades presentes nesses dados. Na política europeia, isso se manifesta em um tratamento desproporcional a pautas migratórias e identitárias, que geram mais comentários, mais compartilhamentos e, portanto, mais receita. Não é uma conspiração; é a matemática do engajamento.
A questão é que matemática, quando aplicada em escala continental, produz consequências políticas. A recomendação algorítmica cria caixas de ressonância que não apenas confirmam visões de mundo, mas as radicalizam gradualmente. Um eleitor moderado que começa a assistir a vídeos sobre reformas tributárias pode, em semanas, estar consumindo conteúdo abertamente xenófobo — não por maldade do algoritmo, mas porque a métrica de relevância entende que aquele caminho mantém a pessoa na plataforma. Esse é exatamente o tipo de artefato que a maioria das empresas diz não controlar, mas que poderia ser auditado com técnicas modernas de interpretabilidade. A pergunta é se há vontade política e orçamento para isso.
IA generativa e a desinformação em escala industrial
Com a popularização da IA generativa, o problema ganhou uma nova dimensão. Se antes era possível identificar robôs por textos mal escritos, hoje não há marcação confiável entre um parágrafo escrito por um humano e um gerado por um modelo de linguagem — especialmente fora do inglês. Em português europeu, por exemplo, a moderação automática sempre enfrenta dificuldades extras: há menos dados de treino, menos ferramentas de detecção e menos escrutínio público. Isso cria um deserto regulatório perfeito para a produção de desinformação localizada, adaptada ao humor de cada país. O populismo digital não precisa mais de fábricas de fake news com dezenas de escritores; bastam algumas APIs e um bom roteiro de prompts.
Além disso, o custo de gerar imagens, áudios e vídeos sintéticos caiu de forma vertiginosa. Uma montagem sonora de um político dizendo uma frase absurda pode ser produzida em minutos e desmentida em dias — mas o dano da primeira hora é suficiente. Para um fenômeno político que vive do choque e da reação imediata, a velocidade de propagação importa mais do que a verificação factual. Isso coloca a engenharia de integridade em uma posição desconfortável: tentar desmentir em massa é um jogo de caça ao coelho, enquanto o conteúdo falso já cumpriu sua função. E a IA aplicada à detecção ainda não é boa o suficiente para distinguir nuances de ironia, contexto e sátira.
O dilema da moderação e a falta de transparência
Classificadores de conteúdo: os limites técnicos
Todo engenheiro que já trabalhou com moderação de conteúdo conhece a frustração de calibrar classificadores. Um modelo que bloqueia discursos de ódio pode, ao mesmo tempo, censurar críticas legítimas ao governo ou proteger minorias da violência — e todos esses erros têm custo político. Na União Europeia, a regulação avança com a Lei de Serviços Digitais, que exige transparência algorítmica e relatórios de risco das plataformas. Mas a implementação prática esbarra em um problema estrutural: a maioria dos sistemas de IA é caixa-preta até para suas próprias empresas, e auditar um modelo é bem mais caro do que treiná-lo. Resultado: a regulação pede, as plataformas prometem, e a auditoria acaba sendo uma auditoria de documentos, não de comportamento real.
Esse é o ponto em que engenharia e política se encontram de forma mais concreta. Não basta que a moderação exista; ela precisa ser projetável, auditável e resiliente a manipulação. Na prática, os governos europeus estão exigindo que plataformas forneçam acesso a dados para pesquisadores, algo que historicamente foi tratado como segredo comercial. A pressão é correta, mas o setor ainda não desenvolveu ferramentas maduras de interoperabilidade para compartilhar esses dados com segurança. Há uma corrida silenciosa para construir essas soluções, e quem tiver experiência em engenharia de dados e privacidade está em vantagem.
O que isso significa para quem constrói produto
Nos produtos digitais, o mantra "feito é melhor que perfeito" precisa ser desafiado em contextos cívicos. Decisões de design aparentemente inofensivas — como exibir uma notificação de comentário polêmico — têm efeito direto na participação política. Quem trabalha com IA aplicada precisa colocar na mesa métricas de qualidade além do engajamento: diversidade de fontes, exposição a conteúdo factual, velocidade de propagação de desinformação. Isso é difícil de medir, mas não impossível. Existem técnicas de amostragem, auditoria externa e testes de adversário que são subutilizadas por falta de prioridade — não por falta de recurso.
A carreira em tecnologia também muda a partir dessa leitura. Profissionais de IA aplicada que entendem de política e regulação se tornam peças-chave dentro das organizações, não pelo título, mas pela capacidade de traduzir riscos sociais em requisitos técnicos. Modelos de risco, revisão de vieses, design de interface para contextos eleitorais, protocolos de incidentes de informação — todas essas são áreas em expansão, ainda carentes de mão de obra qualificada. Para quem está começando, especializar-se em integridade de plataformas e auditoria algorítmica é uma escolha estratégica, tanto do ponto de vista técnico quanto ético.
Riscos, limitações e o erro de culpar a máquina
É preciso, no entanto, evitar um novo determinismo: achar que a IA é a causa única do populismo. A Europa passa por uma crise de custo de vida, pressão migratória, envelhecimento e desindustrialização — nenhum algoritmo cria isso. Atribuir todo o problema às plataformas é confortável, mas errado. O que a IA aplicada faz é amplificar, acelerar e dar escala a forças que já existem. Ela não cria as condições sociais, mas remove as barreiras técnicas que antes limitavam a propagação de ideias radicais. Em português claro: o algoritmo é o acelerador, não o motor.
Além disso, a reação a esse cenário também pode virar autoritarismo. Medidas de moderação excessiva, sem devido processo legal, podem silenciar minorias e dissidentes tanto quanto a desinformação. Exigir responsabilidade das plataformas não pode se transformar em justificativa para um controle estatal da internet, especialmente em regimes instáveis fora da Europa. Aqui, a engenharia tem um papel de equilíbrio: construir sistemas de moderação que respeitem direitos, deem transparência aos critérios e ofereçam recursos para contestação. Isso é difícil, caro e pouco celebrado — mas é o trabalho real de quem leva a sério a IA aplicada.
Uma resposta de engenheiro à pergunta do Realpolitik
Voltando à pergunta do programa de Miguel Pinheiro e Sérgio Sousa Pinto: será que a direita populista vai tomar conta de Portugal e da Europa? Do ponto de vista eleitoral, é uma questão em aberto. Mas do ponto de vista técnico, a resposta é mais direta: a estrutura digital que mais amplifica essa direita populista permanece intacta e funciona como um motor de aceleração contínua. Não vai existir solução democrática duradoura enquanto as decisões sobre o que circula no espaço público forem tratadas como segredos comerciais, enquanto os modelos forem otimizados apenas para retenção e enquanto a auditoria de algoritmos continuar sendo uma atividade marginal.
Como engenheiro e analista de tecnologia, aprendi que os sistemas mais perigosos não são aqueles que falham, mas aqueles que funcionam exatamente para o propósito errado. As plataformas europeias estão funcionando muito bem: geram receita, retêm usuários e entregam conteúdo "relevante". O problema é que, para a democracia, "relevante" significa, muitas vezes, divisivo, inflamatório e falso. A IA aplicada não é a vilã da história, mas é a infraestrutura sobre a qual o populismo digital constrói seus quartéis-generais. Ignorar isso é escolher não ver o campo de batalha.

