Nos últimos anos, um movimento silencioso tem ganhado força entre os jovens que nasceram depois de 1995. Em vez de investir anos em um diploma universitário e depois competir por vagas em desenvolvimento de software, a Geração Z está migrando para trabalhos manuais — eletricistas, encanadores, mecânicos, marceneiros. E, de acordo com o que foi reportado pelo portal Xataka, os resultados financeiros e pessoais têm sido surpreendentemente positivos. Como alguém que construiu a carreira em infraestrutura em nuvem e segurança da informação, enxergo nessa tendência muito mais do que uma simples mudança de preferência. Ela revela um esgotamento profundo do modelo que, durante anos, vendemos como o único caminho para o sucesso profissional.
Não estou aqui para julgar quem escolheu ser programador ou quem largou o código por um torno mecânico. Minha intenção é analisar, com os olhos de quem vive o mercado de tecnologia há quase duas décadas, o que esse movimento nos ensina sobre os erros que cometemos ao romantizar a carreira tech — e o que podemos fazer, como profissionais da área, para não repetir esses mesmos erros.
A bolha do “aprenda a programar” estourou?
Durante uma década inteira, ouvimos discursos inflamados de que programar era a profissão do futuro. Bootcamps, cursos online, influenciadores de tecnologia — todos pregavam a mesma mensagem: torne-se um desenvolvedor e você terá salários altos, home office e estabilidade. O resultado previsível foi uma enxurrada de novos profissionais entrando no mercado. As empresas, por sua vez, elevaram as exigências: não basta mais saber JavaScript ou Python; é preciso dominar frameworks complexos, computação em nuvem, princípios de segurança, arquitetura de microsserviços e metodologias ágeis — de preferência com anos de experiência comprovada.
Os jovens da Geração Z, que muitas vezes não têm 25 anos, deparam-se com um cenário onde o nível de entrada foi inflado artificialmente. Conheço casos de recém-formados que precisaram se candidatar a mais de cem vagas para conseguir uma única entrevista. Em paralelo, a automação e a inteligência artificial começaram a ameaçar tarefas repetitivas de programação. Ferramentas como GitHub Copilot e modelos de linguagem já geram código boilerplate com qualidade aceitável, reduzindo a demanda por programadores iniciantes. Nesse contexto, não é irracional concluir que o retorno sobre o investimento em um curso superior de tecnologia está cada vez mais incerto.
Trabalho manual: resgate do fazer concreto
Do outro lado, os ofícios manuais oferecem algo que a programação, muitas vezes, não entrega: resultados tangíveis e imediatos. Quando um eletricista resolve um curto-circuito ou um encanador desobstrui um sistema de esgoto, o problema está resolvido naquele momento. O cliente vê o serviço concluído, paga por ele e a satisfação é direta. No desenvolvimento de software, o ciclo é longo, repleto de revisões, deploys, bugs e SPRs que se arrastam por semanas. A sensação de “terminar” algo é rara em um ambiente onde o software nunca está pronto — ele apenas é lançado.
Além do aspecto psicológico, há uma questão econômica importante. Profissionais manuais experientes no Brasil e em outros países conseguem rendas equivalentes ou superiores às de muitos programadores juniores, especialmente quando atuam como autônomos em regiões com escassez de mão de obra. A formação é mais curta, o investimento em ferramentas é baixo e a dívida educacional é praticamente inexistente. Para um jovem que saiu do ensino médio sem recursos para uma faculdade, esse cálculo é atraente.
No entanto, não podemos romantizar o trabalho manual. Ele exige esforço físico, exposição a riscos ocupacionais e, em muitos casos, desgaste do corpo ao longo dos anos. A diferença é que esse custo é visível e aceito desde o início, enquanto o desgaste mental do programador — a síndrome do impostor, a pressão por entregas, o medo constante de ser substituído por uma IA — é frequentemente ignorado ou tratado como algo que “faz parte do jogo”.
O que isso significa para quem está (e continua) na tecnologia?
Essa fuga de talentos jovens não é, necessariamente, uma má notícia para os profissionais já estabelecidos em cloud, segurança e desenvolvimento. Se a entrada de novos programadores diminui, a competição por vagas júnior cai, e os salários tendem a se ajustar para cima na base da pirâmide. Mas o efeito colateral é que o mercado pode perder boas cabeças que, se tivessem encontrado um ambiente mais saudável, poderiam se tornar ótimos engenheiros.
Em infraestrutura em nuvem, por exemplo, continuamos com uma demanda crescente por profissionais que entendem de segurança, automação e desenho de sistemas resilientes. A diferença é que essas áreas exigem um conhecimento mais profundo e, de certa forma, menos suscetível à automação imediata. Não é todo dia que uma máquina consegue auditar uma política de rede complexa ou projetar uma arquitetura multi cloud com conformidade regulatória. Mas, para chegar nesse nível, o profissional precisa passar por anos de estudo e experiência prática — e muitos jovens não estão dispostos a enfrentar essa maratona, especialmente quando veem colegas ganhando bem como técnicos de instalação de painéis solares.
Eu mesmo, ao longo da minha trajetória, já me perguntei se não teria sido mais sensato seguir um ofício manual. Não por falta de aptidão técnica, mas pelo cansaço de um mercado que valoriza mais o networking e a “visibilidade” do que a competência real. No entanto, escolhi continuar porque acredito que a tecnologia, quando bem aplicada, resolve problemas em escala — e isso me motiva. Para cada jovem que decide trocar o teclado pela chave de fenda, existe outro que permanece porque encontrou propósito no caos da engenharia de software. O problema é que o sistema está empurrando justamente os que têm talento para fora, antes que eles descubram esse propósito.
Lições práticas para profissionais de software e infraestrutura
Se você está lendo este artigo e trabalha com tecnologia, talvez esteja sentindo na pele a pressão que descrevi. A primeira lição que tiro dessa tendência é: não ignore os sinais de saturação no seu nicho. Programação web básica, CRUDs e manutenção de sistemas legados estão cada vez mais automatizados ou terceirizados para equipes de baixo custo. Para se proteger, invista em áreas de alta barreira de entrada — segurança ofensiva, engenharia de plataforma, compliance técnico, observabilidade. Esses domínios ainda exigem raciocínio humano e experiência contextual que algoritmos não replicam facilmente.
A segunda lição é sobre saúde mental e carreira longeva. A Geração Z está correta ao valorizar o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Se a sua rotina de desenvolvedor está consumindo suas noites e fins de semana para sustentar uma stack superdimensionada, talvez seja hora de questionar se o problema é você ou o ambiente. Já vi equipes inteiras se desgastarem por causa de sprints absurdos e prazos irreais — e muitos desses profissionais, depois de algumas crises, migraram para áreas mais concretas, como operações de infraestrutura ou até mesmo ensino técnico.
Por fim, vale refletir sobre como podemos, como indústria, tornar a carreira em tecnologia mais atrativa para as próximas gerações. Programas de estágio bem estruturados, mentorias reais e um reconhecimento genuíno de que a senioridade não se mede por horas extras são ajustes que não custam caro, mas exigem vontade política das empresas. Enquanto tratarmos programadores juniores como descartáveis, não podemos nos surpreender quando eles escolherem profissões onde o valor do trabalho é respeitado e recompensado com mais previsibilidade.
Um olhar para o futuro
Não acredito que a Geração Z esteja errada ao trocar a programação por trabalhos manuais. Também não acho que esteja certa. Trata-se de uma resposta pragmática a um mercado que se tornou excludente e, em muitos aspectos, predatório. Ofícios manuais não são um retrocesso; pelo contrário, muitos deles estão se digitalizando — eletricistas que instalam sistemas fotovoltaicos com monitoramento remoto, mecânicos que diagnosticam falhas com scanners computadorizados. Essa fusão entre o físico e o digital pode, inclusive, gerar um novo perfil profissional: o técnico de alta especialização, que entende tanto de circuitos quanto de APIs.
Para quem, como eu, escolheu ficar no mundo da tecnologia, a mensagem é clara: precisamos nos reinventar continuamente, mas também precisamos defender a sanidade do nosso ambiente de trabalho. O êxodo da Geração Z não é uma rejeição ao código — é uma rejeição ao modelo de carreira tóxico que construímos ao redor do código. Se soubermos ouvir esse sinal, podemos construir um mercado de TI mais justo e sustentável para todos. Caso contrário, a escassez de novos talentos será apenas o começo de uma crise maior, e o futuro que tanto tememos — dominado por máquinas e sem espaço para humanos — pode chegar mais rápido do que imaginamos.

