Uma pesquisa recente realizada em parceria entre a Recíproka Estratégia e a Capital Aberto mapeou percepções de profissionais sobre as forças que redesenham as relações de trabalho no mercado de capitais brasileiro. O levantamento, divulgado pelo portal DINO, aponta que o setor já compreende com clareza o impacto do avanço tecnológico, da proliferação de dados e das mudanças regulatórias. Mas compreender não é o mesmo que agir. E é aí que a história fica interessante para quem trabalha com tecnologia.
Passei os últimos anos desenhando arquiteturas para sistemas financeiros e de telecomunicações. Quando leio que o mercado de capitais "já entendeu" as forças da transformação, meu primeiro reflexo é perguntar: entendeu mesmo ou apenas reconhece o discurso? Porque entre saber que a inteligência artificial vai mudar a análise de risco e, de fato, reestruturar times, processos e plataformas para operar com machine learning em produção, existe um abismo que muitas organizações ainda não atravessaram.
O que a pesquisa acerta (e o que ela não diz)
O estudo acerta ao identificar três vetores centrais: tecnologia, dados e regulação. São de fato os eixos que qualquer profissional de tecnologia que atenda o setor financeiro precisa dominar. Mas a pesquisa, por sua natureza de levantamento de percepção, tende a capturar o que as pessoas acham que está acontecendo, não necessariamente o que está sendo implementado. Eu vi isso de perto em projetos de cloud migration para corretoras: a diretoria fala em "transformação digital", mas a equipe de TI ainda opera com deploys manuais em servidores físicos porque "o compliance não aprovou a nuvem".
Há um descompasso estrutural entre a percepção de urgência e a capacidade real de execução. E esse descompasso é o verdadeiro gargalo do futuro do trabalho no mercado de capitais, não a falta de entendimento sobre tendências.
Tecnologia: o elefante branco na sala de reuniões
O primeiro vetor apontado pela pesquisa é o avanço tecnológico. Soa óbvio, mas o diabo está nos detalhes. O mercado de capitais brasileiro convive com sistemas legados que são verdadeiras relíquias da engenharia de software — mainframes rodando COBOL, bancos de dados relacionais com décadas de idade e integrações baseadas em arquivos CSV enviados por e-mail. A pressão por modernização é real, mas a conta chega em forma de dívida técnica.
Do ponto de vista de um engenheiro de software, o desafio não é apenas adotar inteligência artificial ou construir APIs REST. O desafio é fazer isso sem quebrar a esteira de liquidação de ativos que precisa rodar com disponibilidade de cinco noves. Já vi equipes inteiras gastarem seis meses tentando extrair dados de um sistema legado para alimentar um modelo de aprendizado de máquina, apenas para descobrir que a qualidade do dado era tão baixa que o modelo nunca sairia da fase experimental.
A tecnologia, nesse contexto, não é a solução. Ela é o problema que precisa ser gerenciado. E isso muda completamente a forma como pensamos o futuro do trabalho no setor.
Dados: o dilema entre quantidade e qualidade
O segundo vetor, a proliferação de dados, é talvez o mais mal compreendido. O mercado de capitais sempre foi intensivo em dados — cotações, volumes, históricos de negociação, balanços, indicadores macroeconômicos. O que mudou não foi a existência dos dados, mas a velocidade com que eles chegam e a granularidade esperada.
Na prática, o que vejo em projetos de produto digital é que as empresas financeiras estão coletando dados como nunca, mas ainda não sabem o que fazer com eles. É o famoso "data rich, insight poor". Os times de engenharia de dados gastam 80% do tempo limpando e padronizando bases que chegam de fontes heterogêneas — B3, Bloomberg, provedores de dados não estruturados — e o restante do tempo tentando entregar algo que o analista de investimentos realmente use.
O futuro do trabalho aqui não é sobre ter mais engenheiros de dados. É sobre construir uma cultura em que a curadoria de dados seja tratada com a mesma seriedade que a gestão de risco. Enquanto isso não acontecer, teremos departamentos de TI inchados e áreas de negócio insatisfeitas.
Regulação: o motor invisível da inovação
O terceiro vetor, as mudanças regulatórias, merece uma atenção especial. Regulação costuma ser vista como entrave, mas no mercado de capitais brasileiro ela funciona como catalisador — quando bem interpretada. A abertura do mercado de câmbio, o sandbox regulatório da CVM, a agenda do open finance, as exigências de reporte em tempo real — cada uma dessas iniciativas força as organizações a repensarem seus sistemas e processos.
Para um engenheiro de software, regulação é essencialmente um conjunto de regras de negócio que precisam ser implementadas com altíssimo nível de confiabilidade. O que diferencia um bom time de tecnologia no mercado financeiro não é a capacidade de programar, mas a capacidade de traduzir requisitos regulatórios complexos em código que não pode falhar. É um tipo de especialismo que vai muito além de dominar uma linguagem de programação ou um framework.
E aqui vai uma percepção pessoal baseada em experiência: os profissionais que vão se destacar nesse mercado não serão os que sabem mais sobre machine learning, mas os que conseguem explicar para um auditor ou para o compliance como um modelo de IA tomou determinada decisão dentro dos limites regulatórios. Explicabilidade não é um luxo, é um requisito de produção.
Onde está o gargalo real: pessoas, não tecnologia
A pesquisa mostra que o mercado de capitais entende as forças de transformação. O que ela não captura é o drama silencioso da requalificação profissional. Profissionais de tecnologia que passaram anos dominando ferramentas específicas de mercado — sistemas de negociação proprietários, bancos de dados especializados — agora precisam aprender cloud computing, contêineres, pipelines de CI/CD e segurança em nuvem. Não é uma transição trivial.
Conheço casos de arquitetos de sistemas que eram considerados "indispensáveis" em uma corretora porque dominavam o sistema legado, mas que se viram obsoletos quando a empresa decidiu migrar todo o parque para AWS. A empresa não os demitiu, mas eles simplesmente não conseguiram se adaptar. O gap não era técnico — era de mentalidade. A tecnologia mudava, mas a forma de pensar sobre sistemas, não.
O mercado de trabalho em tecnologia para o setor financeiro está criando uma clivagem perigosa: de um lado, profissionais que conseguem operar no novo ambiente de dados abertos, APIs e modelos de IA; do outro, profissionais presos ao paradigma anterior, que insistem em tratar o novo como uma extensão do velho. As empresas que não gerenciarem essa transição com cuidado vão perder talentos e, pior, vão construir sistemas híbridos que carregam o pior dos dois mundos.
O que significa "futuro do trabalho" na prática de engenharia
Se eu tivesse que resumir o que aprendi atuando na arquitetura de sistemas para o mercado financeiro nos últimos anos, seria o seguinte: a transformação não é sobre adotar tecnologia nova, mas sobre abandonar tecnologia velha. Parece óbvio, mas não é. A maioria das empresas tenta fazer coexistir o legado com o moderno, criando sistemas monstruosos com camadas de abstração que ninguém entende completamente.
O futuro do trabalho no mercado de capitais, na minha visão, será definido por três capacidades: abstração de legado (conseguir isolar sistemas antigos sem precisar reescrevê-los), governança de dados em tempo real (tratar dado como produto, não como subproduto) e automação de conformidade (transformar regulação em código, não em checklists manuais).
Empresas que investirem nessas três frentes — e que valorizarem os engenheiros que entendem de negócio financeiro tanto quanto de tecnologia — vão sair na frente. As que continuarem achando que "contratar um cientista de dados" resolve todos os problemas vão descobrir que o cientista de dados passa seis meses tentando acessar dados que não existem em formato utilizável.
Uma perspectiva sobre carreira e especialização
Para quem está construindo carreira em tecnologia e pensa em atuar no mercado de capitais, minha recomendação é direta: não se especialize em ferramentas, especialize-se em domínios de problema. Entenda como funciona a liquidação de ativos, a gestão de risco, a precificação de derivativos, a conformidade regulatória. A tecnologia vai mudar — o domínio do problema, não.
Engenheiros que dominam tanto a técnica quanto o negócio financeiro são raros e valiosos. E são exatamente esses profissionais que a pesquisa da Recíproka e Capital Aberto sugere, ainda que indiretamente, que o mercado mais precisa. Não para operar máquinas, mas para desenhar os sistemas que farão o mercado de capitais funcionar nos próximos vinte anos.
A pesquisa acerta em diagnosticar as forças. O que falta é o plano de ação. E esse plano não virá de consultorias ou de levantamentos de percepção. Virá de arquitetos de sistemas, engenheiros de software e líderes técnicos que sujem as mãos com código legado, dados sujos e regulamentações ambíguas — todos os dias.
